Brasileiros no Líbano: Raiva, Medo e Incerteza em Meio à Escalada do Conflito
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O Líbano enfrenta um cenário de intensificação de confrontos que afeta diretamente sua população e a numerosa comunidade brasileira residente no país. Chuvas, frio e o som de bombardeios marcam a rotina de milhares de pessoas deslocadas, que buscam refúgio em meio à crescente tensão entre Israel e o grupo político-militar Hezbollah.
Em menos de três semanas, a escalada do conflito esvaziou grande parte do sul libanês, forçando mais de 1 milhão de pessoas a abandonarem suas casas. Relatos indicam cerca de mil mortos e 2,5 mil feridos, transformando a região em um palco de crise humanitária.
O país abriga a maior comunidade de brasileiros no Oriente Médio, com aproximadamente 22 mil cidadãos em 2023, segundo dados do Ministério das Relações Exteriores. Muitos deles vivem o drama da guerra de perto, lidando com medo, incerteza e graves dificuldades financeiras.
Vida sob o Fogo Cruzado: A Rotina dos Deslocados
A situação é particularmente crítica nas cidades do sul do Líbano, onde os combates e ataques são mais frequentes. Infraestruturas são atingidas, e a vida cotidiana é interrompida pela violência, que se manifesta dia e noite.
Famílias inteiras são forçadas a deixar suas residências com o mínimo de pertences, buscando abrigo temporário em outras regiões ou em acampamentos improvisados. A visão de pessoas sob a chuva e frio, em barracas, é uma realidade dolorosa que se espalha pelas ruas e estradas libanesas.
O Drama de Hussein Melhem: Fuga e Prejuízos
Hussein Melhem, libanês naturalizado brasileiro de 45 anos, morava com sua família em Tiro (Tyre), no litoral sul do Líbano. A região é uma das mais afetadas pelos bombardeios. Em uma madrugada de março, o prédio onde residia tremeu violentamente, marcando o início de sua fuga.
“Estava dormindo e a minha esposa me acordou assustada. Parecia um terremoto, com os mísseis passando por cima do prédio direto para Israel. Saímos de casa imediatamente apenas com um pouco de roupa”, relatou Melhem à Agência Brasil, descrevendo a urgência da situação.
A situação atual, segundo ele, gera um misto de raiva, tristeza profunda e grande incerteza. “Estamos gastando tudo que a gente tem. Não posso voltar para trabalhar. Não consigo dormir direito por causa da preocupação”, desabafou.
Melhem, que é dono de uma padaria em Tiro, não consegue mais acessá-la devido ao conflito. Sua casa própria foi bombardeada, e a destruição infraestrutural é extensa. “No Sul, você não vê quase nenhum carro na rua. É muita destruição. Ontem bombardearam 12 pontes que acabaram com o movimento para o sul do Líbano. Tem uma ponte só”, lamentou, evidenciando o isolamento da região.
Pai de três filhas — de 17, 15 e 7 anos —, Hussein descreve o cenário das ruas com famílias inteiras forçadas a abandonar suas casas. “As ruas, nem te falo, é muita tristeza. Você chora vendo as barracas, as pessoas embaixo da chuva, no frio”, disse.
Atualmente, a família está em uma casa emprestada por um conhecido, mas terá que deixá-la em dez dias ou começar a pagar aluguel, o que se tornou inviável. “Não sei o que eu vou fazer depois, estou perdido”, completou, ilustrando a total falta de perspectiva de muitos deslocados.
O Medo Constante de Aly Bawab e o Impacto Psicológico
O também brasileiro-libanês Aly Bawab, de 58 anos, residente em Manaus (AM), havia viajado para o Líbano para visitar sua família. Sua chegada em 28 de fevereiro coincidiu com o primeiro dia de ataques de Israel e Estados Unidos contra o Irã, o que intensificou o conflito regional.
A família de Bawab também é do sul do país. Ele decidiu abandonar a região após presenciar um edifício desmoronando, atingido por um míssil israelense. Atualmente, encontra-se em Beirute, onde os bombardeios ocorrem diariamente.
Bombardeios Diários e o Trauma da População
“É dia e noite, não tem horário. Hoje tivemos alguns momentos de paz durante o dia, apesar dos aviões militares do inimigo ficarem ultrapassando a velocidade do som para fazer um tipo de explosão no ar e assustar as pessoas”, relatou Aly, destacando a constante pressão psicológica.
Casado com uma libanesa e pai de três filhos, Aly tenta manter a calma para transmitir tranquilidade à família, apesar do medo. “Medo com certeza, mas você tem que manter a calma. Mas as crianças em volta sentem. No último bombardeio, que atingiu dois apartamentos em um prédio alto aqui próximo, o corpo sentiu a vibração da explosão. O corpo treme sem você ter controle”, descreveu o impacto físico e emocional.
Aly Bawab também lamenta a perda de amigos e a situação de muitos que não conseguiram sair do sul do Líbano. “É bastante traumatizante, você vê essa situação em que você se encontra, em que as pessoas não sabem o que fazer ou quanto tempo vai durar essa guerra”, completou, expressando a profunda incerteza que paira sobre a região.
Análise da Escalada do Conflito no Líbano
A intensificação dos ataques de Israel contra o Líbano, que se acentuaram após o Hezbollah retomar as ofensivas contra Israel em 2 de março, é um fator crucial para a escalada da guerra na região. O grupo libanês alega agir em retaliação aos ataques de Israel no Líbano e em resposta ao assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei.
A historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Beatriz Bissio, analisou a estratégia adotada por Israel no Líbano, observando semelhanças com as ações na Faixa de Gaza. “O que Israel está propondo é repetir a ofensiva, particularmente no sul do Líbano, uma vez que frustrou-se a expectativa da liderança israelense de ter aniquilado o Hezbollah”, afirmou a especialista.
Destruição e Perspectivas de Futuro
O sul do Líbano encontra-se arrasado pelo conflito. Aldeias foram destruídas, e as colheitas, essenciais para a economia local e subsistência das comunidades, foram impactadas severamente. A destruição não se limita à infraestrutura militar, atingindo diretamente a vida civil e a capacidade de recuperação da região.
A crise humanitária se agrava a cada dia, com a população civil sofrendo as consequências mais duras da escalada. A falta de acesso a serviços básicos, moradia segura e oportunidades de trabalho se torna um desafio para as milhares de famílias deslocadas.
O Apoio Diplomático aos Brasileiros no Líbano
Diante da complexidade da situação, o governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores e de sua embaixada em Beirute, tem monitorado a situação e prestado assistência consular aos brasileiros no Líbano. A comunidade é orientada a manter contato com as autoridades para informações e possíveis auxílios.
Esforços diplomáticos são contínuos para garantir a segurança dos cidadãos brasileiros e avaliar as necessidades urgentes, incluindo a possibilidade de apoio para aqueles que desejam ou precisam deixar as áreas de conflito. A situação, no entanto, permanece fluida e desafiadora.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

