Circo de Família: Tradição Vira Patrimônio Cultural do Brasil
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Um reconhecimento histórico para a cultura brasileira. O Circo de Tradição Familiar foi oficialmente elevado ao status de Patrimônio Cultural do Brasil. A decisão, aguardada por décadas, celebra uma das mais antigas e vibrantes formas de expressão artística do país.
O Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, vinculado ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), foi o responsável pela aprovação. Com isso, o circo familiar agora integra o Livro de Registro das Formas de Expressão, garantindo sua preservação e valorização.
A novidade foi anunciada após uma reunião decisiva realizada no Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro. O encontro que selou o destino dessa manifestação cultural ocorreu na última quarta-feira (11).
Definição e Relevância Nacional
O Iphan descreve o Circo de Tradição Familiar como uma manifestação cultural de caráter itinerante. Sua organização centraliza-se em torno de núcleos familiares, onde os saberes são transmitidos oralmente.
As técnicas, modos de fazer e formas de convivência são passados de geração para geração. Isso cria um elo contínuo que mantém viva a essência do circo, percorrendo todo o território nacional.
Para o conselho consultivo, a relevância da tradição circense familiar é inegável. Ela se destaca pela força na promoção de espetáculos, pelas práticas lúdicas que encantam o público e pela rica memória social que constrói.
A Luta Incansável da Família Zanchettini
Por trás desse reconhecimento, há uma história de perseverança. A decisão do Iphan está diretamente ligada à luta de inúmeras famílias que mantêm essa tradição viva, mas uma delas se destacou como pioneira no processo.
O Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado no Paraná em 1991, liderou os esforços para o registro. A companhia foi criada por Wanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin, e seu legado é mantido pelos dez filhos e filhas do casal e seus descendentes.
Desde 1993, Wanda encabeçou a batalha para que a categoria recebesse o merecido reconhecimento. Seu pedido oficial de registro foi protocolado junto ao Iphan em 2005, mobilizando outras famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas.
Lamentavelmente, Wanda não chegou a testemunhar a vitória. Ela faleceu em 2017, anos antes da decisão que coroou sua incansável dedicação. O reconhecimento chegou mais de 30 anos após o início de sua luta.
A Voz dos Descendentes
Edlamar Maria Cabral Zanchettin, de 68 anos, filha de Wanda e uma das herdeiras da tradição, reivindica o protagonismo da família nesse processo. Em entrevista, ela destacou o esforço da família.
“Foi a nossa família quem protocolou, quem trabalhou, foi a Brasília, fez reunião. Tudo fomos nós”, afirmou Edlamar. Ela ressaltou que, apesar do foco familiar, a luta tinha um objetivo maior: o reconhecimento para todos os circos brasileiros e seus antepassados.
A celebração foi intensa para a família. Edlamar comparou o feito a um grande prêmio. “É como um Oscar para o circo brasileiro, porque é para todos”, disse, expressando a dimensão da conquista para o setor.
A emoção por sua mãe não ter vivenciado o momento é palpável. “Lutou muito por isso, mas, infelizmente, não chegou a alcançar este momento de glória. Foi a pessoa que foi na frente, nos empurrou, nos deu força e chegamos, graças a Deus, a esse reconhecimento”.
Origens de Uma Paixão Circense
A história da matriarca Wanda Cabral Zanchettin é profundamente enraizada no universo do circo. Em 1949, aos 18 anos, Wanda já atuava no circo de ciganos Irmãos Marques, ao lado de sua mãe e irmãos.
Nesse mesmo ano, Primo Júlio, um artista italiano, conheceu Wanda e se apaixonou. Eles se casaram e, com o apoio dos parentes da mulher, deram vida ao Circo Teatro Gávea. Era o início de uma trajetória que marcaria gerações.
Erimeide Maria, de 65 anos, outra filha do casal, recorda os primeiros tempos. “O circo era pequeno, mas, ali, a gente aprendeu tudo. A mãe passava as técnicas pra gente. Ela sabia tudo sobre circo e sobre as artes”, destacou, enfatizando o conhecimento de Wanda.
Em 1991, após a morte de seu marido, Wanda decidiu homenageá-lo batizando a companhia de Circo Zanchettini. Um gesto que eternizou o legado de Primo Júlio e a união do casal.
Um Lar na Estrada: A Vida dos Filhos Circenses
“O pai a acompanhou nessa trajetória, como artista e palhaço”, contou Erimeide. Os dez filhos do casal – cinco mulheres e cinco homens – nasceram e cresceram em barracas montadas ao redor do circo, imersos na rotina e na magia do espetáculo.
Erimeide Maria, por exemplo, desempenhou múltiplos papéis ao longo da vida circense. Ela foi trapezista, cantora, acrobata e atriz, entre outras funções, demonstrando a versatilidade exigida pela profissão.
Apesar dos desafios inerentes à vida itinerante, a convivência em família sempre foi um ponto forte. Erimeide revelou que a união entre os irmãos – Edlamar, Erimeide, Márcia Aparecida, Solange Maria, Áurea, Silvio Marcos, Sérgio, Jaime, Márcio e Amauri – foi essencial.
“É uma luta difícil e continua sendo para todos os circenses, muito trabalhosa”, pontuou Erimeide. Contudo, ela ressaltou que a união com pais, irmãos e agregados proporcionou “sempre uma vida feliz em circo, que é nossa grande paixão, nosso amor”.
O Futuro da Tradição: Novas Gerações em Ação
A renovação no circo familiar é uma constante. Atualmente, a geração mais nova da família Zanchettini já faz parte ativamente do elenco, garantindo a continuidade do espetáculo e do legado cultural.
“Os mais novos vêm chegando, e a gente vai repassando toda a história do circo, com suas nuances”, observou a apresentadora. Ela destacou a sabedoria e o linguajar próprios do circo, que são transmitidos com um propósito claro de manutenção da identidade.
Os jovens da família não apenas mantêm a tradição, mas também buscam novas oportunidades. Entre os sobrinhos, um deles expandiu os horizontes e foi para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, para atuar como artista circense, levando a arte familiar para o cenário global.
A perpetuação do Circo de Tradição Familiar é um testemunho da paixão e dedicação. É uma cultura que segue “de geração em geração”, com dez irmãos e seus descendentes “caminhando pelo mundo afora, montando e desmontando circo, enfrentando estradas, fazendo espetáculos”.
O reconhecimento como Patrimônio Cultural do Brasil não é apenas um título, mas um incentivo para que essa arte milenar continue a encantar e a contar histórias por muitas e muitas décadas.
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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

