Comunidades de mães solo crescem na China e inspiram o Brasil
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Na China, cerca de 30 milhões de mães solo criam seus filhos sozinhas, enfrentando o desafio diário de conciliar trabalho, casa e maternidade. No Brasil, esse número chega a 11 milhões de mulheres, que também lidam com sobrecarga financeira e ausência paterna. Mas, diante das dificuldades, muitas estão encontrando soluções criativas para transformar solidão em comunidade e solidariedade.
A experiência chinesa chama a atenção: mulheres sem laços de sangue, mas unidas pelo mesmo propósito, estão dividindo lares e responsabilidades, construindo redes de apoio que desafiam o modelo tradicional de família. No Brasil, embora em menor escala, histórias semelhantes já apontam para a força da coletividade.
O fenômeno das casas compartilhadas na China
Comunidades informais
Com o aumento dos divórcios no país asiático, apenas um em cada seis homens fica com a guarda dos filhos, 83% das famílias monoparentais acabam sob responsabilidade feminina. Para lidar com a sobrecarga, surgiram as casas compartilhadas entre mães solo.
Nesses lares, cada mãe contribui financeiramente e se reveza no cuidado das crianças. A jornalista chinesa Sun, de 44 anos, é exemplo dessa realidade. Após o divórcio, mudou-se para um apartamento em Pequim com outras duas mulheres na mesma situação. Ela conta que o maior ganho não foi apenas para si, mas para a filha de 9 anos:
“Uma criança única pode se sentir sozinha. Morando juntas, elas aprendem a conviver, brigar, fazer as pazes e respeitar o outro. Isso é valioso para o futuro.”
Internet como rede de apoio
Plataformas como Xiaohongshu (RedNote) e Douyin (o TikTok chinês) se tornaram pontos de encontro para mães solo em busca de suporte. Anúncios como o de Feng, de Chongqing, mostram a criatividade dessas mulheres:
“Procuro outra mãe solteira para dividir apartamento. Podemos revezar nos cuidados: se você trabalha de dia, eu cuido à noite.”
Assim, surgem lares onde a cooperação ultrapassa as barreiras financeiras e emocionais.
Vantagens e desafios do modelo compartilhado
Dividir a rotina significa muito mais do que dividir contas. Segundo relatos, a maior vantagem é dividir emoções e responsabilidades. Em Pequim, Sun destaca:
“Somos como espelhos umas das outras. Quando tenho um problema, minhas companheiras percebem e me ajudam.”
Pesquisadores definem essa experiência como uma “alternativa funcional” à família tradicional. Porém, há desafios. A convivência pode ser desgastante, como aconteceu com Xu, de Xi’an, que desistiu da experiência após seis meses por diferenças de estilo de criação e dificuldades financeiras.
Além disso, dados de 2018 mostram que mais de um terço das mães solo chinesas recebia até 2.000 yuans por mês (cerca de R$ 1.400), e quase um quarto vivia abaixo da linha da pobreza nas grandes cidades.
A realidade das mães solo no Brasil

Dados preocupantes
Segundo estudo da FGV (2022), 11 milhões de brasileiras criam sozinhas seus filhos, representando quase 15% das famílias do país. Entre 2012 e 2022, o número de domicílios chefiados por mulheres nessa condição cresceu 17,8%.
O recorte racial evidencia desigualdades: as mães solo negras já somam 6,9 milhões, representando 90% do crescimento nos últimos dez anos. Elas também enfrentam mais obstáculos educacionais e financeiros:
- Apenas 8,9% chegaram ao ensino superior.
- A renda média em 2022 era de R$ 1.685 por mês.
- Quase metade (45%) trabalhava na informalidade.
Já entre mães solo brancas e amarelas, a média salarial chegava a R$ 2.772, quase o dobro.
Sobrecarga e abandono afetivo
Além da questão financeira, muitas brasileiras enfrentam o abandono afetivo, quando os pais não participam emocionalmente da criação dos filhos. Essa ausência amplia a sobrecarga da maternidade solo.
Pontos de conexão entre Brasil e China
Apesar das diferenças culturais e econômicas, tanto na China quanto no Brasil, mães solo estão buscando saídas criativas para lidar com a realidade. Enquanto as chinesas experimentam lares compartilhados como forma de reinventar a família, no Brasil a solidariedade se expressa em redes informais com vizinhas, amigas ou parentes próximos.
O Papa Francisco resumiu bem a essência desse movimento ao dizer:
“Não existe mãe solteira. Mãe não é estado civil.”
A maternidade, em qualquer contexto, é símbolo de resistência, cuidado e amor.
Conclusão e chamada para ação
As histórias de mães solo mostram que, embora enfrentem desigualdades sociais e econômicas profundas, a força da coletividade pode transformar realidades. Da China ao Brasil, exemplos de solidariedade reforçam a importância de criar e fortalecer redes de apoio comunitárias, sejam formais ou informais.
No Brasil, além da luta por políticas públicas mais eficazes, cada gesto de apoio, como dividir a rotina, acolher ou oferecer ajuda prática, pode representar um alívio imenso para quem enfrenta a maternidade solo.


