Pagani: Dois Anos Que Marcaram a História do Clube do Remo e do Baenão
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No universo do futebol, alguns atletas se tornam lendas, mesmo com passagens relativamente curtas por um clube. Suas histórias transcendem estatísticas e o tempo no gramado.
No Clube do Remo, nomes como Alcino, Mesquita e Bira são reverenciados, integrando a memória coletiva da torcida azulina.
Recentemente, em uma votação popular realizada nas redes sociais do Leão, os torcedores elegeram o 'Remo de todos os tempos', um time ideal com os maiores ídolos.
Entre os defensores, ao lado do consagrado Belterra, um nome em especial chamou a atenção: Gilson Pagani. Ele defendeu o Remo por apenas duas temporadas.
Sua inclusão nessa lista de elite do Clube do Remo demonstra que, para o coração do torcedor, a eternidade não é medida por relógios.
Pagani, que hoje reside em Portugal, compartilhou suas memórias e a profunda conexão com o time paraense em uma entrevista exclusiva.
A Chegada de um Defensor Diferenciado ao Baenão
Gilson Pagani desembarcou em Belém em 1986. Ele já possuía uma trajetória respeitável, vindo do Santos Futebol Clube.
No clube paulista, havia atuado ao lado de grandes nomes do futebol brasileiro, como Rodolfo Rodrigues, Serginho Chulapa e Paulo Isidoro.
Sua experiência incluía um título paulista e um vice-campeonato brasileiro, credenciais que o consolidavam como um jogador de alto nível.
A torcida do Remo, contudo, esperava mais do que um currículo: buscava entrega e identificação com a camisa. Pagani não tardou a corresponder.
Em sua estreia, o zagueiro marcou um gol na vitória de 3 a 1 sobre o Sport Belém, apresentando-se de forma impactante à massa azulina.
O Estilo Único do Camisa 4
Desde os primeiros minutos em campo pelo Clube do Remo, Pagani exibiu uma característica peculiar para um defensor: a leveza e habilidade de um camisa 10.
Ele se destacava por sair jogando com elegância, cabeça erguida, avançando no campo com naturalidade e uma visão de jogo apurada.
Pagani explica a origem dessa versatilidade: 'Minha posição de origem foi a lateral-esquerda, então eu era acostumado a atacar e defender'.
Ele acrescenta: 'Por isso que quando fui para a zaga, tinha facilidade de sair jogando e puxando o time para o ataque'. Sua performance o diferenciava.
Essa aptidão para construir jogadas a partir da defesa rapidamente o conectou com a fervorosa torcida remista, que o via como um jogador completo.
O Campeonato Paraense de 1986: Glória no Baenão
A chegada de Pagani ao Remo ocorreu em um período de grande expectativa por títulos. O clube vivia um jejum de seis anos no Campeonato Paraense.
Uma frase, escrita no muro do Baenão, revelava a pressão: '1980, 81, 82, 83, 84, 85, começa 86 e a gente não é campeão no Pará'. Essa inscrição marcou o zagueiro.
Aquele ano de 1986 trouxe a esperança de reverter a situação. O time construiu uma sequência de vitórias que culminou em uma final histórica.
O Mangueirão recebeu uma multidão de torcedores ansiosos para o confronto decisivo. A partida se desenrolou com intensidade, mantendo todos em suspense.
Ao final dos noventa minutos, o Clube do Remo sagrou-se campeão paraense. Foi o fim de uma longa espera, e a taça foi erguida em meio a uma explosão de alegria.
A celebração da torcida azulina foi imensa, comparável a um carnaval. A festa foi tão grandiosa que os jogadores levaram cerca de três horas para conseguir deixar o estádio, tamanha a euforia.
Liderança e Conexão com a Torcida Azulina
Com a saída de Mesquita, Pagani assumiu a braçadeira de capitão do Remo, consolidando sua liderança dentro e fora de campo.
Ele descreve a emoção de jogar com o Baenão lotado: 'O Baenão é a nossa casa, é onde a gente mostra a nossa força'.
O ex-zagueiro reforça a exigência do clube: 'E para vestir a camisa do Remo, com o Baenão cheio, você tem que mostrar que é jogador. Não é qualquer um que pode vestir a camisa'.
Sua liderança foi crucial em um momento desafiador, quando o elenco ficou cinco meses sem receber salários. Pagani interveio diretamente com a diretoria em nome dos atletas.
Após quatro semanas de negociações, todos os pagamentos foram regularizados, demonstrando sua capacidade de representação e comprometimento com o grupo.
No final de 1987, por circunstâncias que prefere não comentar, o capitão deixou Belém, encerrando sua passagem pelo Clube do Remo.
Memórias Afetivas e Curiosidades da Capital Paraense
Além dos triunfos e desafios do futebol, a estadia de Pagani em Belém foi marcada por experiências culturais únicas e histórias curiosas.
Uma dessas histórias envolveu sua primeira experiência com o açaí. Recém-chegado, ele viu pessoas carregando sacos com um líquido vermelho.
Pagani recorda o estranhamento: 'Pensei que era sangue. Estranhei aquilo. Como é que pode as pessoas carregando sangue?'.
Ao avistar uma típica venda de açaí, ele indagou: 'Amigo, desculpe a minha ignorância, mas o que é isso que estão carregando?'.
A resposta foi clara: 'Isso é açaí, amigo'. Após experimentar, ele descreve: 'Foi amor à primeira vista', tornando-se um apreciador da iguaria.
Outra lembrança curiosa remonta ao período de alta inflação no Brasil. Pagani recebeu um prêmio de melhor em campo de uma forma inesperada.
Torcedores o presentearam com uma caixa de palmitos em conserva. Eles disseram: 'Pagani, se você não aceitar o presente, a gente nunca mais te dá nada'.
O ex-zagueiro aceitou o presente 'com muito orgulho', relembrando a anedota com bom humor e carinho pela espontaneidade da torcida.
O Legado Duradouro de um Ídolo Azulino
Apesar de ter defendido o Clube do Remo por apenas dois anos, Gilson Pagani conseguiu construir um legado imponente e duradouro.
Sua inclusão na seleção de todos os tempos, eleita pelos próprios torcedores, é um testemunho da profundidade de seu impacto e carisma.
Atualmente em Portugal, Pagani mantém viva a chama de sua paixão pelo Leão Azul, demonstrando que a distância geográfica não apaga as memórias.
Sua história é um exemplo de como a dedicação, a habilidade e a identificação com um clube podem transcender o período de atuação.
Pagani se tornou um símbolo de uma era vitoriosa no Campeonato Paraense, um zagueiro que jogava com técnica e paixão no gramado do Baenão.
Por quase quatro décadas desde sua chegada a Belém, a conexão entre Pagani e o Clube do Remo continua forte e presente nas lembranças.
Seu nome está eternizado entre os grandes que vestiram a camisa azulina, lembrado não apenas pelo título, mas por sua postura de liderança inquestionável e estilo único.
A trajetória de Pagani reforça que a glória no futebol é construída não apenas em títulos, mas no amor e na admiração de uma torcida que o elegeu como um de seus eternos ídolos.
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Fonte: https://diariodopara.com.br


