Polícia Militar desocupa reitoria da USP com bombas e gás; estudantes relatam feridos e detenções
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A Polícia Militar de São Paulo realizou na madrugada deste domingo (10) a desocupação do prédio da reitoria da Universidade de São Paulo (USP), que estava ocupado por estudantes desde o dia 7 de maio. A ação policial resultou na retirada dos manifestantes que participavam de uma greve estudantil iniciada em abril.
De acordo com informações divulgadas pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE), quatro universitários foram detidos durante a operação. Os estudantes também relataram o uso de bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, que teriam deixado pessoas feridas.
O movimento de ocupação da reitoria era parte de uma mobilização maior por diversas reivindicações, principalmente ligadas à política de permanência estudantil na USP. A ação policial ocorreu em um contexto de impasse nas negociações entre a universidade e os grevistas.
Ação Policial na Madrugada
Registros feitos pelos próprios estudantes que estavam no local indicam que a intervenção da Polícia Militar teve início por volta das 4h15. Os relatos descrevem que mais de 30 policiais participaram da desocupação, utilizando escudos e cassetetes.
Os universitários afirmam que foram usadas bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, causando ferimentos em alguns presentes. Além disso, houve denúncias sobre a formação de um “corredor polonês”, uma prática em que detidos são obrigados a passar entre duas fileiras de policiais que os atingem com cassetetes.
A corporação foi procurada para comentar a operação e informou que deve enviar uma nota oficial sobre a ação em breve. A reportagem também tentou contato com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, mas não obteve resposta até o fechamento desta matéria.
Detenções e Repercussão Estudantil
Os quatro estudantes detidos foram encaminhados ao 7º Distrito Policial. Até o momento, não foram divulgadas informações sobre a identidade dos alunos ou os cursos em que estão matriculados. A comunidade universitária aguarda mais detalhes sobre a situação legal dos detidos.
Em comunicado, o DCE da USP manifestou forte repúdio à ação da Polícia Militar. A entidade estudantil classificou a desocupação como “violenta”, alegando que “deixou dezenas de estudantes feridos” e que a força foi usada contra aqueles que “lutavam por melhores condições”.
Acusações do DCE
O DCE atribuiu a responsabilidade pela operação ao reitor Aluísio Segurado e ao seu chefe de gabinete, Edmilson Dias de Freitas. O comunicado enfatiza que a comunidade universitária deve repudiar profundamente a decisão da Reitoria, que teria optado por ignorar as reivindicações estudantis.
A nota critica o fato de a repressão ter ocorrido em um domingo, dia 10 de maio, data de comemoração do Dia das Mães, o que adiciona uma camada de sensibilidade à situação. Os estudantes afirmam que a Reitoria escolheu reprimir alunos que sustentam o ensino, pesquisa e extensão na universidade.
Contexto da Greve Estudantil
A greve na USP foi aprovada pelos estudantes em 14 de abril, inicialmente como um apoio à mobilização dos servidores da universidade. Os servidores haviam cruzado os braços em protesto contra uma gratificação salarial destinada exclusivamente aos professores.
Após pressão e negociações, os servidores conseguiram avanços em suas demandas salariais e encerraram a paralisação. No entanto, os estudantes decidiram manter a greve, focando em suas próprias reivindicações, que se intensificaram ao longo das semanas seguintes.
Estima-se que entre 150 e 200 estudantes, segundo o DCE, se revezaram na ocupação da reitoria, organizando-se em turnos, com divisão de tarefas, agenda cultural e manutenção da limpeza do espaço. A mobilização visava manter a pressão sobre a administração da USP.
Reivindicações Centrais dos Estudantes
A principal demanda dos estudantes é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE). Atualmente, o programa oferece benefícios que variam entre R$ 335 para estudantes residentes em moradias estudantis e R$ 885 para o auxílio integral.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Com essa proposta, o auxílio integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial para estudantes com moradia subiria para R$ 340. A proposta, contudo, foi considerada insuficiente pelos estudantes grevistas.
Os manifestantes defendem um reajuste para R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista. Dany Oliveira, estudante de Artes Cênicas, destacou que esta é uma reivindicação antiga da categoria, que busca há mais de um ano vincular o valor das bolsas estudantis ao salário mínimo regional.
Negociações e Impasse
A reitoria da USP abriu três rodadas de negociação com os estudantes na tentativa de solucionar o impasse. No entanto, diante da rejeição da proposta apresentada pela administração, a universidade optou por encerrar as conversas unilateralmente.
Essa decisão gerou grande insatisfação entre os grevistas, que viram a interrupção do diálogo como um sinal de desconsideração às suas pautas. O encerramento das negociações foi um dos fatores que levou à intensificação das manifestações e à ocupação da reitoria.
Outras Pautas da Mobilização
Além do PAPFE, os estudantes criticam outras questões estruturais da universidade. Entre elas, a gestão do restaurante universitário, popularmente conhecido como “bandejão”, e a qualidade da moradia estudantil são pontos de constante debate.
Outra preocupação levantada pelos manifestantes é a situação do Hospital Universitário (HU), uma instituição vital para a comunidade. Segundo os estudantes, o HU teria perdido cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década, impactando diretamente na qualidade dos serviços prestados.
A desocupação da reitoria marca um novo capítulo na greve estudantil da USP, com a comunidade acadêmica atenta aos próximos passos e às possíveis novas negociações ou manifestações por parte dos alunos e da administração da universidade.
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