Cidades dos EUA Resistem a Planos de Detenção de Imigrantes em Armazéns
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Subúrbios conservadores nos Estados Unidos têm se tornado palco de intensos protestos contra a proposta de transformar grandes armazéns em centros de detenção de imigrantes. A medida, parte da campanha de deportações em massa impulsionada pela administração de Donald Trump, enfrenta resistência em diversas comunidades, que questionam a adequação e as implicações sociais de tais instalações.
O aumento significativo nas prisões de imigrantes tem gerado uma crescente demanda por mais espaços de retenção. Em resposta, autoridades federais, como o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário (ICE), passaram a considerar a adaptação de centros logísticos vazios como uma solução rápida e aparentemente prática para o problema de infraestrutura.
No entanto, a escolha desses locais tem provocado forte oposição. Em Roxbury, Nova Jersey, por exemplo, a comunidade se mobilizou contra a conversão de um armazém de quase 46.500 metros quadrados. O espaço, que antes abrigava mercadorias, é visto pelos moradores como totalmente inadequado para acolher seres humanos, gerando um debate ético e prático.
A Ascensão dos Armazéns como Centros de Detenção
A estratégia de utilizar armazéns reflete a urgência do governo em expandir a capacidade de detenção. Desde o Texas até a Pensilvânia, o ICE já adquiriu ou alugou pelo menos oito instalações com esse perfil para transformá-las em centros de custódia. Essa tática permite uma rápida expansão, evitando os longos processos de construção de novas unidades dedicadas.
William Angus, de 55 anos, que lidera os protestos em Roxbury, expressa o sentimento comum. “Isso é um armazém. Ele foi projetado para guardar pacotes e mercadorias, não seres humanos”, afirmou à AFP, em frente ao grande edifício branco. A estrutura possui múltiplos portões de carga para caminhões e fica adjacente a outro armazém em pleno funcionamento, características que reforçam a percepção de sua inaptidão para a finalidade proposta.
Apesar da intenção federal, a agência responsável pela ofensiva migratória já foi forçada a recuar em alguns locais. A rejeição por parte da população e as pressões locais têm se mostrado um fator relevante, evidenciando a capacidade das comunidades de influenciar decisões em nível federal, ao menos em etapas iniciais dos projetos.
O Papel da População nas Decisões Federais
A mobilização popular em Roxbury é um exemplo claro dessa resistência. Cerca de 500 pessoas se reuniram em uma calçada, exibindo cartazes com mensagens como “Não somos uma cidade carcerária” e “ICE, fora do nosso bairro”. A cidade, um subúrbio com baixos índices de criminalidade que votou em Trump nas eleições de 2024, demonstra que a oposição transcende divisões partidárias quando se trata de questões locais e de impacto direto na vida dos moradores.
Essa manifestação de descontentamento busca dissuadir o ICE de estabelecer sua presença na localidade. Alguns manifestantes inclusive lembraram a morte de dois indivíduos por agentes federais em Minneapolis, em janeiro, um evento que gerou ampla indignação nacional e alimentou o debate sobre as táticas da agência.
Impacto e Preocupações Humanitárias
Pesquisas de opinião pública sugerem que o ICE tem perdido apoio entre os americanos, em parte devido às suas táticas de aplicação agressiva da lei de imigração. A enfermeira Heidi, de 50 anos, que preferiu não divulgar seu sobrenome, resumiu a preocupação de muitos: “Não quero campos de concentração desumanos no meu país, e muito menos aqui mesmo em Nova Jersey”.
A prefeitura de Roxbury, que é republicana, aprovou uma resolução majoritariamente simbólica contra a possível instalação do ICE. Embora não tenha força legal para impedir a ação federal, o documento serve como um endosso político à posição da comunidade, cerca de 40 quilômetros a oeste de Nova York.
A manifestação em Roxbury recebeu apoio de motoristas que buzinavam em solidariedade. No entanto, um pequeno grupo de opositores aos protestos também se manifestou, gritando “Vão para casa” para os manifestantes. Gordon Taylor, um gerente de fábrica aposentado de 71 anos, exemplificou essa perspectiva: “Acho que é uma oportunidade de limpar esta área de Nova Jersey. Há muita gente que provavelmente está aqui ilegalmente”.
O Cenário Nacional da Detenção de Imigrantes
Desde o início do segundo mandato presidencial de Trump, em janeiro de 2025, o número de centros de detenção de imigrantes nos Estados Unidos praticamente dobrou. Dados do Conselho de Imigração dos Estados Unidos, uma ONG dedicada ao tema, indicam que o número saltou de 114 para 218 até o final de novembro do mesmo ano, evidenciando uma expansão sem precedentes.
A organização também documentou pelo menos 30 mortes de detidos em prisões do ICE apenas em 2025, além de relatar problemas crônicos de superlotação e deficiências na assistência à saúde nesses centros. Essas denúncias intensificam as preocupações sobre as condições humanitárias e o bem-estar dos indivíduos sob custódia federal.
Nayna Gupta, diretora de políticas da ONG, criticou a abordagem federal. “A administração Trump trata as pessoas como pacotes”, declarou à AFP. Essa visão ressalta a percepção de que a política atual desumaniza os imigrantes, tratando-os como meros objetos a serem processados e armazenados, em vez de indivíduos com direitos e necessidades.
Limitações da Oposição Local e Consequências Comunitárias
Embora a oposição aos centros do ICE seja expressa por democratas e republicanos em suas respectivas regiões, a capacidade de veto local é limitada. As comunidades podem pressionar a agência federal e os proprietários dos armazéns para que recuem, mas o poder de decisão final muitas vezes reside em instâncias federais e em acordos de propriedade privada.
A preocupação dos moradores de Roxbury vai além da instalação de uma prisão em seu bairro. Há o temor de que a presença de agentes de imigração possa levar a uma intensificação das detenções na região, afetando a segurança e o cotidiano da comunidade. Essa apreensão é particularmente sentida por trabalhadores imigrantes e suas famílias, mesmo aqueles com status legal.
Pablo Arceo, funcionário de um restaurante mexicano próximo ao armazém vazio, expressou sua inquietação diante da possibilidade de agentes do ICE intimidarem seus colegas. “É uma preocupação. Já tivemos policiais que aparecem por coisas menores e todo mundo fica nervoso”, afirmou o jovem de 20 anos, destacando o impacto psicológico da presença da agência na rotina local.
A ampliação dos centros de detenção em armazéns é um reflexo das políticas migratórias em vigor nos EUA e dos desafios enfrentados na gestão do fluxo de imigrantes. A resistência local, embora nem sempre decisiva, sublinha a complexidade do tema e o forte impacto que tais medidas têm nas comunidades afetadas. O debate sobre a humanidade e a eficácia dessas estratégias continua a ser um ponto central na agenda política e social do país.
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Fonte: https://g1.globo.com


